José Borralho: ‘A memória revolucionária é um capital precioso’

A pesar do golpe militar de 25N o movimento popular e operário manteve durante algum tempo conquistas e energias que não permitiram à burguesia entrar a matar. A burguesia teve de ser cautelosa e levou vários anos a desmantelar as organizações populares e as conquistas.

Por J.F. Kastro | 25/04/2026

«Chegou o momento do avanço decisivo para o socialismo”, isto proclamava a 21 de Novembro o manifesto dos oficiais do COPCON.

«O poder dos trabalhadores tem que ser armado”. Será isto infelizmente, o inicio do último ato do PREC. Das causas da sua derrota, a do maior processo revolucionário na Europa Ocidental desde pós-guerra até hoje, vamos falar com o Camarada Jose Borralho, histórico militante comunista.

Nasceu em Pias, Concelho de Serpa, no Alentejo. Ligou-se aos meios anti-fascistas (MDP), e ao mesmo tempo aos grupos comunistas. Participou na fundação da UDP e mais tarde do PC (R), tendo pertencido ao seu Comitê Central. Com o falecido Francisco Martins Rodrigues, e, com outros camaradas participou na formação da Organização Comunista Política Operária.

Operário e dirigente sindical, na Comissão Inter-Empresas.

O Camarada é uma testemunha ativa e lúcida dos eventos que vamos debater. Pode introduzir para os nossos leitores qual foi o seu percurso militante como revolucionário comunista antes e depois de Abril?   

Oriundo de uma zona rural com tradições antifascistas e inúmeros presos nas prisões do fascismo, cedo despertei para a realidade de um país que tinha para oferecer miséria, repressão e ausência de futuro. Manifestações, greves reivindicativas e prisões políticas foi o meu primeiro caldo de conhecimento.

Viria a participar activamente na frente política MDP nas últimas eleições promovidas pelo fascismo português. Paralelamente começaram os meus contactos com militantes mais lúcidos ligados a grupos comunistas revolucionários. Foi aí verdadeiramente o meu contacto com o marxismo leninismo e a integrar a fundação da UDP mais tarde do PCP (R) tendo apoós alguns anos, participado na cisão com outros camaradas, entre os quais Francisco Martins Rodrigues, Manuel Raposo e outros camaradas e formado a OCPO (Organização Comunista Política Operária). Participo actualmente com outros camaradas,  no projecto de reerguer uma Plataforma anti capitalista. Enquanto operário participei activamente na formação da comissão sindical na empresa e na formação de uma Comissão de Trabalhadores que foi um orgão de participação política e reivindicativa. Participei também na direcção do Sindicato e na Comissão Inter Empresas que teve papel de destaque nas grandes movimentações operárias e populares.

«25 de Novembro foi brando porque a contra-revolução não tinha muita energia, mas também porque não havia muita revolução para destruir”. 40 anos depois deste texto do Camarada Francisco Martins e 50 anos dos feitos, segue a concordar com esta análise?

Concordo só em parte. O movimento revolucionário teve muitas fraquezas que o condenaram. A primeira, não ter tido uma direcção revolucionária, mas isso foi culpa acima de tudo dos grupos revolucionários, que não tiveram a lucidez política exigida pela situação. A fusão da teoria revolucionária marxista com o movimento real na verdade não se deu. Não se pode pedir ao movimento espontâneo que tenha ele próprio a visão política que cabe às organizações revolucionárias elaborar. Neste sentido, os grupos revolucionários, e o nosso partido também, passaram em grande parte ao lado da revolução.

Num segundo aspecto, apesar do golpe militar de 25N o movimento popular e operário manteve durante algum tempo conquistas e energias que não permitiram à burguesia entrar a matar. A burguesia teve de ser cautelosa e levou vários anos a desmantelar as organizações populares e as conquistas. Simbólico: só hoje a comemoração do 25N se faz abertamente.

«Os três meses finais da crise, entre o pronunciamento de Tancos e o 25 de Novembro, tiveram como pano de fundo a disputa das tropas por parte da corrente popular». Seguindo a tese de Francisco Martins, podemos dizer que a esquerda revolucionária ficou encurralada no 25 de Novembro?

Dias antes do 25N, os trabalhadores da CCivil cercaram o parlamento e forçaram a assinatura de um contrato de trabalho que o patronato e o governo da altura empatavam. Isso mostra como o movimento de base ainda tinha força própria. As disputas na cúpula do MFA (acirradas desde o verão 75) tiveram importância decisiva no golpe militar e na desarticulação posterior do movimento revolucionário. Mas não podemos dizer ou sugerir que o movimento popular ascendente foi produto directo dos militares de esquerda e que a sua derrota foi produto dos militares de direita. A esquerda do MFA é que deve ser considerada um produto do movimento revolucionário, que obrigava os militares a “radicalizar-se” se queriam acompanhar o movimento. Como dito acima, o recuo do movimento após 25N foi peculiar e demorado, isso diz alguma coisa sobre o seu poder próprio.

Quais chances reais tinham na altura os SUV, o movimento operário e popular e a Esquerda Militar após Tancos para travar o golpe termidoriano da pequena burguesia, da direita e dos Nove? 

Após Tancos a esquerda militar estava derrotada. Mas o movimento, não necessariamente. A derrota do movimento popular começou com a incapacidade (é uma constatação histórica) de ganhar o apoio do campesinato, da pequena burguesia pobre (que o Soares neutralizou) e as populações pobres do centro e norte do país. O movimento operário viu-se isolado. Perdeu socialmente. O golpe foi o rematar desta realidade. Podemos sonhar: se a 26A74 houvesse um partido revolucionário capaz de elaborar uma linha para as circunstâncias (incluindo a criação de milícias populares e comissões de soldados revolucionários) outro galo cantaria. Outras dificuldades surgiriam certamente e não era seguro que, na posição geopolítica de Portugal, houvesse uma revolução votoriosa. Mas, sonhando de novo, o que sucederia em Espanha ao franquismo se o movimento em Portugal tomasse o poder. Talvez a questão para o imperialismo EUA e europeu se pusesse então como uma questão ibérica e não apenas portuguesa. Mais difícil!

Após cerco da embaixada espanhola, e no contexto de ataques terroristas do MDLP, ELP e outros grupos fascistas apoiados polo regime de Franco, estiveram no seio do movimento popular revolucionário a considerar próxima uma intervenção militar franquista com apoio do fascismo e direita local? 

Não sei qual a perspectiva de Franco sobre a situação portuguesa. Parece que teve algum cuidado. A situação  espanhola também não era muito segura, o regime abeirava-se do fim, Franco morreu em novembro de 75. Além de que o assunto português era tratado pelos EUA e alemães directamente. Invasão militar, creio que nunca se colocou a questão. Os fascistas portugueses em Espanha foram tolerados, mas creio que não mais do que isso.

Tinham na esquerda combativa portuguesa contato com grupos de exilados galegos e com o movimento armado basco? 

Houve relações do PCP(R) com   comunistas e revolucionários de Espanha, e de outros países da Europa.

Como é que viam o emergente movimento nacionalista revolucionario galego na altura, sobretudo tendo em conta o processo descolonizador do antigo império português e também,uma potencial ruptura democrática no Estado Espanhol após lenta agonia do régime fascista de Franco ?   

Sempre tivémos expectativa nos camaradas comunistas e revolucionários de Espanha, porque disso dependia muito o êxito das acções políticas em Portugal, obviamente.

Casso operários em greve e SUV ganharem a partida em Lisboa e Cunhal não conseguir retirar grevistas da Assembléia Constituinte, com os Nove e Costa Gomes dispostos a tudo, é que teriamos visto um Noske luso do PS a marchar sobre a capital para afogar insurretos por meio de um banho de sangue.? 

A melhor resposta a isso foi dada pelo MSoares. Numa entrevista em que já não tinha muitas peias na lígua disse que se “os comunistas” tomassem Lisboa eles (Soares e golpistas) bombardeavam Lisboa. Os comunistas para ele, eram obviamente os operários revolucionários. Por seu lado, o PCP Em vez de estimular e procurar levar às últimas consequências o movimento revolucionário espontâneo, contribuiu para constituir dentro do movimento operário uma corrente moderada, colada às curtas ambições democráticas da pequena burguesia, que isolasse e silenciasse os sectores mais radicais.

O PCP conseguiu junto do proletariado aquilo que o PS conseguiu junto da pequena burguesia: limar as arestas ao movimento popular e submetê-lo à nova ordem. Esta aliança objectiva (que teve o empenho pessoal de Álvaro Cunhal, não obstante a distância e as críticas a Mário Soares) deu como efeito a prazo a desarticulação e a derrota do movimento operário mais radical – como a burguesia pretendia, com o engodo de uma democracia “representativa”, “moderna”, “europeia”.

Quais eram em sua opinião as cartas do povo trabalhador para resistir num cenário assim o assalto de forças contrarrevolucionárias e da OTAN? 

Num cenário desses, zero.

Qual seria segundo você, Camarada , a reflexão final a fazer sobre o 25 de Abril, o PREC, a luita descolonizadora até o 25 de Novembro, e as lições a tirar polos revolucionários dos diferentes povos peninsulares no contexto destes 50 anos.

O dum Portugal agora mesmo sob controlo total do Império e do Capital, sob os desígnios da OTAN e UE, com maioria parlamentar da direita e ultradireita na Assembléia, vendo o fascismo desacomplexado a ressurgir em auge na Europa inteira, enquanto  espectro da guerra total das elites do Ocidente contra da Rússia, da China e do Mundo Multipolar bem logo se pode materializar?   

Evidenciamos que para a derrota do fascismo, os povos colonizados que em armas derrotaram o colonialismo português. A luta armada que não foi feita em Portugal pelo movimento revolucionário, foi feita pelos povos das ex colónias; é uma dívida internacionalista para com aqueles povos heróicos.

Se não esquecermos as lições do PREC, teremos sempre meios para no futuro fazer melhor. A memória revolucionária é um capital precioso. Mas as condições de luta dos povos europeus mudaram muito. Estamos apesar de tudo menos isolados uns dos outros do que em 1974. A luta futura vai travar-se seguramente em espaços sociais e geográficos mais alargados. Além de que o capital imperialista ocidental está em crise final. Pode levar mais tempo de que desejaríamos, mas o colapso deste sistema e a abertura de novas condições revolucionárias (decorrentes de “modernidade” em que vivemos) são inevitáveis. Como KMarx disse em tempos (salvo erro, quando as  revoluções europeias de 1848 fracassaram), “a situação é desesperada mas é isso mesmo que me enche de esperança”.

Assim os comunistas saibam empenhar-se na construção de uma corrente popular revolucionária e construir o seu Partido revolucionário comunista.

Saudações comunistas para os/as camaradas da Redação de Nueva Revolucion.

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