Daniela Klette: ‘O julgamento contra mim é um julgamento contra uma oposição emancipatória, de esquerda radical e anticapitalista’

Carta ao Congresso Rosa Luxemburgo, 11 de janeiro de 2025

Por Daniela Klette | 23/07/2025

Caros participantes da Conferência Rosa Luxemburgo, caros camaradas:

Saúdo-os hoje desde o cárcere de Vechta. Há quase um ano, após décadas vivendo na clandestinidade, fum presa. Tenho pela frente vários anos de julgamentos, nos quais sou acusada de participar de expropriações armadas. Além disso, o judiciário está conduzindo outro processo contra mim, no qual serei acusada de participar de ações de guerrilha urbana contra o capitalismo e o imperialismo.

Eu tinha 17 anos quando a luta de libertação vietnamita derrotou o imperialismo liderado pelos EUA. Essa vitória incrível foi alcançada com solidariedade global – apesar do napalm, apesar da enorme máquina militar que se opôs ao movimento de libertação e apesar dos massacres da população vietnamita cometidos pelos militares americanos com a assistência e a cumplicidade do Ocidente, especialmente da Alemanha.

Eu tinha 16 anos quando soube do assassinato de um homem sob custódia, que estava em greve de fome contra a tortura da detenção em isolamento. Tratava-se de Holger Meins, que se posicionou contra o sistema e foi morto na prisão por desnutrição deliberada e pela recusa de atendimento médico durante a alimentação forçada ordenada pelo Estado. [1]

Foi uma época de tentativas de libertação e lutas anticoloniais em muitos países: por exemplo, os Panteras Negras contra a opressão racista e pela revolução nos EUA, a luta contra o apartheid na África do Sul, ou a FSLN na Nicarágua contra a ditadura local. Comecei a entender o que a humanidade pode esperar do capitalismo e do imperialismo. Sim, eu me via como parte dos movimentos globais que lutam pela libertação da exploração e da opressão, contra o capitalismo e o patriarcado, e contra a guerra e o militarismo.

O sistema jurídico está agora deliberando sobre a minha culpa no sentido jurídico. Para mim, não se trata de culpa, mas sim do que mobilizou e continua a mobilizar milhões de pessoas: como superar as condições globais que produzem guerra, deslocamento, exploração, opressão patriarcal e racista, pobreza e destruição ecológica total?

Os poderosos estão se preparando para a grande guerra para preservar seu poder. A sociedade é marcada pela pobreza crescente, pela militarização e por uma guinada à direita. O capitalismo caminha para um desastre ecológico. A situação atual do mundo deixa inequivocamente claro que as questões sobre como superar essas condições eram justificadas e continuam sendo necessárias. Essas questões são para todos nós, e só podemos respondê-las coletivamente e por meio de movimentos em larga escala. Gostaria de estar com vocês para trabalharmos juntos nessas questões. Mas a repressão e a determinação do Estado em condenar o histórico de oposição fundamental impedem tal coisa.

Ninguém que esteja preso como parte da esquerda libertadora e revolucionária está encarcerado simplesmente por seus atos alegados ou reais. Todos nós estamos presos devido à intenção do Estado de deslegitimar a história das lutas revolucionárias e de dissuadir lutas futuras, condenando-nos a anos de sofrimento na prisão. Isso se aplica a mim tanto quanto a Mumia Abu-Jamal e Leonard Peltier nos EUA, aos anarquistas presos na Grécia – Marianna, Dimitri, Nikos, Dimitra – e a muitos outros presos políticos em todo o mundo.

Nesse sentido, o julgamento contra mim é um julgamento contra uma oposição emancipatória, de esquerda radical e anticapitalista.

Eu apreciaria muito se aqueles que pudessem comparecessem ao meu julgamento, que começará em breve – para mostrar que este não é um julgamento apenas contra mim, mas, em outro nível, contra todos os que se envolvem com a questão da superação do capitalismo. Agradeceria profundamente qualquer solidariedade!

Desejo a vocês muito sucesso e, sim, também espero que vocês desfrutarem imenso na Conferência Rosa Luxemburgo deste ano!

Com solidariedade, espírito de luta e um caloroso abraço a todos,
DK


[1] Holger Meins foi o primeiro de uma série de membros capturados da Facção do Exército Vermelho a morrer na prisão. Ele faleceu em 9 de novembro de 1974, como Klette descreve, como resultado direto de negligência médica em uma tentativa de interromper uma greve de fome de prisioneiros da RAF

Traducido ó galego por JFKastro

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